Mostrando postagens com marcador antónio prates. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador antónio prates. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de maio de 2067

Brados de um Ser

Sou filho de um berço,
que é feito de palha, e cheira a verdura...

Sou fruto de um Maio,
coberto de flores, chorando a censura...

Sou eterno gaiato,
que brinca nos campos, a brincar com nada...

Sou força de um tempo,
que um dia sorriu, e se fez alvorada...

Sou sonho que emerge,
por entre o restolho, e se esvai no pousio...

Sou conto sem fadas,
que avança no tempo, que não se contou...

Sou grito da alma,
que brada no céu, e cai no vazio...

Sou poeta que avança,
por entre o destino, sem saber quem Sou...

(2004)

António Prates - In Sesta Grande

Sentinela Virtual

Vós que sois juízes do meu fado,
aqui, no resplendor das antefaces,
protegei a minha vida com cuidado,
sem essa aberração das subclasses…

Dizei tudo o que sou e que não sou,
velai a minha acção a descoberto,
e vede que meu mal não se acabou,
aqui, neste arraial de peito aberto…

Por isso, olhai o circo, em traje puro,
os bons malabaristas e os palhaços;
mirai alguns funâmbulos do futuro,
fitando os movimentos que aqui faço…

Defendei o meu feitio rude e tosco,
com esse bem-querer que vos conheço,
e sei que poderei contar convosco
enquanto eu divagar neste endereço…

António Prates – 2014

Poetas e Cantigas

Isto de fazer uma cantiga,
como a "lei" manda ao poeta
muito tem que se lhe diga,
não sei se noutra me meta.

(mote do Dr. Alexandre Torrinha)

I
Sendo um dom do pensamento,
com palavras num sem fim,
como plantas de um jardim,
enfeitando o chão cinzento;
elas brotam, no momento,
como brota a verde espiga,
um condão que se mastiga
nesta minha opinião...
Eu acho que é vocação
isto de fazer uma cantiga...

II
Bem temperada pela rima,
que lhe dá forma e beleza,
dá sentido e mais firmeza,
se a moral nos vem de cima...
Uma grosa quando lima
pela forma mais concreta,
faz-se trova de profeta,
enfeitada com grainhas,
e as palavras são rainhas,
como a "lei" manda ao poeta...

III
O que é dito pelo mote
é destino e pão da obra;
verso a verso se desdobra,
no sentir de cada dote...
Mete as águas no capote,
quando o pão falta à barriga;
brada alto a quem lhe liga,
exprimindo a sua crítica;
e essa coisa da política,
muito tem que se lhe diga...

IV
Um actor, quando declama
o que manda o sentimento:
trova amor, sorte e lamento,
pedindo paz como quem ama...
Trovador de cante e chama,
que se exalta na caneta;
entretido nesta faceta,
vou rimando a meu prazer,
e como gosto de escrever,
não sei se noutra me meta...

(2003)

António Prates - In Sesta Grande

Serenata

A noite escuta o mote afeiçoado
ao Céu que sobressai do varandim:
um cante com um mote apaixonado,
no amor do Anastácio Joaquim…

A bela cede ao cante, à bela prosa,
ouvindo os provençais no trovador;
um Mago, Um Dom Juan, um Rubirosa
que inflama os altos versos do amor…

Apruma a sua voz pela planície,
num modo açucarado e tão sucinto,
e enquanto diz da vida uma chatice
traduz a inspiração de um Borba tinto…

O tom em Dó Maior - forte e conciso -
aflora a rouquidão, que não lhe acode,
e diz: amor amor…, nesse improviso,
por entre as largas pontas do bigode…

A bela afaga o nardo, emocionada,
com a voz que se evapora no relento,
e entre uma janela escancarada
recolhe aos cobertores do aposento…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Sonhos de Abril

Chora Abril retalhado,
na doutrina do poder,
seguindo rumo ao passado,
com a liberdade a sofrer...

I
No florescer da pastagem,
perante um lençol mimoso,
avança Alentejo vaidoso,
respira desprezo e coragem...
Dá-nos ar da sua imagem,
num sorriso retratado;
disfarça o ser magoado
que sua alma entristece,
enquanto o povo padece
chora Abril retalhado...

II
Lágrimas já repassadas,
penando no leito do rio;
sente um enorme vazio
sofrido em tantas chuvadas...
Brechas, enfim reparadas,
coisas que dizem fazer…
Passa na água - a correr -
tal percurso viciado,
acena em caldo entornado,
na doutrina do Poder...

III
Lições de memória pequena
que a consciência ditou:
Nobre, o poeta trovou:
“Grândola vila morena...”
Aperta saudade amena,
num coração já cansado...
Sangra sozinho no prado,
enferrujando o celeiro,
verga perante o dinheiro,
seguindo rumo ao passado...

IV
Veste em ar de graça
a sensação que promete,
lavrada no Jet-set,
semeada na lei da caça...
Pobre é gente de raça,
povo que sabe perder,
o teu contento é viver
na ambição do sustento,
esquecido no Mandamento,
com a liberdade a sofrer...

(1999)

António Prates - In Sesta Grande

Temporal

Se esta chuva não parar,
durante esta madrugada,
amanhã não faço nada,
e tenho o feno p`ra ceifar.

Se esta chuva não parar,
o terreno fica alagado;
fica o gado sem pastar,
na pastagem do meu gado.

Se estou apoquentado,
durante esta madrugada,
canto uma letra dum fado,
ou um cante à namorada.

Toda a chuva vem molhada,
prometendo a boa vida...
Amanhã não faço nada,
nem cuido da minha lida.

Talvez tome uma bebida,
enquanto a chuva durar;
cai a chuva bem caída,
e tenho o feno p´ra ceifar.

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Pulula a velha inveja pelas veias

Pulula a velha inveja pelas veias,
ali, aos solavancos, na cabeça;
adoida a sensatez de cada peça,
moendo o fraco eixo das ideias…

Afecta velhos novos magros gordos,
e aquela ruiva loira que é morena;
possui a laia grande - laia pequena -
com marcas da invídia nos rebordos…

Lá está, na condição do abastado,
no lucro capital de um lambe-botas;
empresta o seu tributo aos idiotas,
e aos homens de estatuto fabricado…

Insiste e vai até fim do mundo,
com essa agitação empedernida;
Difunde o seu veneno em cada vida,
perfaz o seu desígnio furibundo…

É tanta tanta inveja, essa má sorte,
no génio que a cabeça tem de sobra.
Se alguém contém sucesso em sua obra,
provará do seu veneno até à morte…

E aquando das exéquias benfeitoras,
o mau é bom de mais pra ser verdade;
bendita seja a morte na Humanidade,
que apaga a velha inveja fora d`horas…

(2012)

António Prates - In Sesta Grande

Novas Oportunidades

Por cada lição cumprida
há um exemplo prematuro,
destinado ao bem da vida
e ao proveito do futuro.

I
Nestas Novas Conjunturas
das voltas do meu trajecto,
grafo cunhos do intelecto
com indícios de aventuras;
entre o fado das mesuras
e uma fé fortalecida,
verte a crença concedida
aos testemunhos do saber,
que me dão mais que fazer
por cada lição cumprida…

II
Lavro a minha existência,
no decurso e nas façanhas,
como gestas das entranhas
e do chão da paciência;
em cada certa ocorrência,
vejo sempre um velho muro,
que atalha o que procuro
tal como um animal veloz,
porque em cada um de nós
há um exemplo prematuro…

III
E então algo oportuno
na Nova Oportunidade,
faz-me expor, com liberdade,
as valências que reúno:
lembro as fases do aluno,
nessa fase entorpecida,
comparando cada medida
na forma do seu tamanho,
como algo muito estranho
destinado ao bem da vida…

IV
Todavia, esse recurso,
ondulante e buliçoso
é um exemplo caprichoso
das marcas do meu decurso;
mas depois desse percurso,
que sugere o meu apuro,
há um verso que auguro,
no prato das Competências,
dirigido às contingências
e ao proveito do futuro…

(2008)

António Prates- In Sesta Grande

Amizade

Amizade é um valor que se descreve,
com a bondade que afaga o coração;
dá-nos calor com a cor da fria neve,
nesses momentos de retiro e solidão...

Dá-nos apoio, um delicado sentimento,
compartilhado na ternura, no carinho;
adoça o tempo, a faguice do momento,
onde as palavras soam ternas e baixinho...

Sentimos luz em cada pingo de desvelo,
admirando o resplendor, a claridade;
e cabe sempre mais um amigo no Castelo,
dentro da alma, onde vive esta Amizade…

(2007)

António Prates - Sesta Grande

Flor

Toda a flor que é linda e bela
tem na alma mais perfume,
e todos olham para ela
com desejo e com ciúme…

I
Como um terno amanhecer,
nasce, brota e vem ao mundo;
tem no brio algo profundo
que a faz resplandecer…
Entre o bem e o mal querer,
vinga aqui nesta courela,
como um quadro de aguarela,
conduzindo a sua sina…
É mais doce e mais divina
toda a flor que é linda e bela...

II
Suas cores um matizado,
que a faz montra de beleza:
um tal lustre a camponesa,
no padrão mais destacado…
Entre as muitas a seu lado,
é primor que está no cume,
Como gelo em brando lume,
que derrete, e diz presente…
Toda a flor resplandecente
tem na alma mais perfume…

III
Se é cercada por enleios,
ganha mimos e abraços…
Tudo é lindo e cria laços
com outros que são mais feios…
O vasto encanto em devaneios,
dá-lhe o brilho de uma estrela;
Como eterna sentinela,
tão castiça e tão briosa,
com a luz mais luminosa,
e todos olham para ela…

IV
Veste o pão da divindade,
na estufa da vivência,
que a sua fina aparência
transmite com claridade…
Há quem diga que é vaidade,
e ao primor chame negrume;
com sementes em cardume,
cresce livre e engalanada,
sendo a flor mais cortejada,
com desejo e com ciúme…

(2005)

António Prates - In Sesta Grande

Perseverança

Perseverança dos meus dias apagados,
teimosia destes versos incompletos...
Fazes-me ser como poetas desvairados
na poesia desses torpes alfabetos...

Nunca te rendas, ou me deixes convencido,
ante os discursos, que se fazem com croché...
Ó perseverança és o dom do meu sentido
e aquela força que me faz andar de pé...

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Moinhos do Guadiana (Alqueva)

Ó velas do meu moinho,
rodízios da minha azenha,
vão rodando lentamente
esperando que a morte venha!...

I
Há qualquer coisa no rosto
desse teu ser pachorrento,
como quem espera o vento
nas belas tardes de Agosto…
O que me causa desgosto
é ver o teu descaminho,
deixo neste pergaminho
saudades do teu passado,
e ao ver-te abandonado
ó velas do meu moinho...

II
Foste um símbolo da vida,
remoeste farinha a rodos...
foi pena não dar p´ra todos,
como é triste a despedida...
Foste pão numa guarida,
imperador real da brenha...
o meu ser em ti se empenha
em ser cantante e moleiro...
ó águas do meu ribeiro,
rodízios da minha azenha...

III
Rodopiando a nostalgia
onde o meu ser nada viu,
não laborou, não sentiu,
nem fez de ti moradia;
resta a minha simpatia,
o supor de quem não sente,
recordar o antigamente,
enaltecer a nossa História,
E os meus versos, na memória,
Vão rodando lentamente...

IV
Rodam como uma moagem
com carradas de cultura,
os sinais de desventura
dão-me gritos de coragem,
- são murmúrios da mensagem,
ruminada e tão gamenha...
Que a Natureza nos mantenha
Sempre a par do seu saber,
E todo o mais é só viver,
Esperando que a morte venha...

(2002)

António Prates - In Sesta Grande

Maria

Maria tens no brilho do teu olhar
esta minha complicada situação:
azucrinas com amor meu coração,
quando andas pelo campo a serenar…

Olho as curvas que te tocam no caminho,
e os gestos revolvidos entre a palha;
esperando toda a sorte que me calha,
sou um demo com instantes de anjinho…

Os instantes que me dão dor e enfarte,
se te vejo a manobrar no lavadouro;
por não ter o teu olhar, o teu namoro,
sinto quase um badagaio em toda a parte…

Porém, se a vida tiver tento e caridade,
me dará o teu amor como uma prova;
compro um monte e uma mobília nova,
para te dar além de amor felicidade…

Nessa hora, serei pai de uma família,
que será a reverência do meu mando;
prometo que vou falar, de vez em quando,
sobre a vida e sobre os gastos da mobília…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Mulher

A mulher é como a fruta,
quando é verde tem frescura,
amadurece enquanto escuta,
e é doce quando é madura...

I
Surgem pontos de atracção
no desejo descarado,
o preconceito é podado
no primor da avaliação;
a instintiva cativação
na vitamina mais astuta,
o apetite que dá luta,
o caminho a escalar...
- está sujeito a reparar:
a mulher é como a fruta...

II
As laranjas reluzentes,
nas canastras e cabazes;
arredondados ananases
ficam belos e salientes,
- os sumarentos pendentes,
descascados na doçura;
o conservante da alvura
é perdido e dispensado,
e tal gomo apaladado
quando é verde tem frescura...

III
Como o néctar do kiwi,
olhares desconcertantes,
conjugam os corantes
no primor que há em si;
a essência que sorri,
que imagina, que matuta;
a certeza diminuta
que invade a melancia,
semeada à revelia
amadurece enquanto escuta...

IV
O destino não se altera
e o tempo não desvia,
Já não é tão sadia
Para ser mais sincera;
a ternura que prospera,
o brio que transfigura:
consistência que assegura
que a experiência é um posto,
é timbrada pelo gosto,
e é doce quando é madura...

(1998)

António Prates - In Sesta grande

Anúncio

Sou um homem educado,
fato limpo e aprumado,
nestas minhas pretensões:
procuro aqui uma mulher ,
que tenha pouco saber
e que traga alguns tostões…


Tem de ser gente encartada,
trabalhosa e asseada,
nas coisas d`agricultura;
se tiver um bom tractor,
digo que ainda é melhor
para os dias de fartura…


Convém que seja uma feia,
com buracos na ideia
e vontade p`rá cozinha,
que me faça bons petiscos,
e suture outros rabiscos
com agulha e boa linha…


Essas suas mãos de fada
prometem casa arrumada
e destreza no asseio,
- já vejo tudo a luzir,
quando ela quiser ouvir
os versos do meu paleio…


Também quero ser adorado,
no enxuto, no molhado,
na luzerna e no fogão,
e assim a venturosa
será aquela que goza
este anúncio de paixão…

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Pastor Alentejano

Leva o gado pelo cão,
neste campo belo e vasto,
num sem fim de solidão
Que flutua pelo pasto...

I
Quando o sol quiser brilhar,
neste campo, neste atalho,
há meio dia de trabalho
que se fez a trabalhar;
seu destino é madrugar
e dar vida ao alavão,
entre ovelhas e o colchão
faz o mesmo todo o ano,
o pastor alentejano
leva o gado pelo cão...

II
Leva o tarro na farpela
e o rádio p´ró relato,
acompanha o campeonato
embutido na courela;
a garrafa é uma estrela
que no cocho deixa o rasto,
o rebanho segue basto,
vai unido e imponente,
pelo golo está contente,
neste campo belo e vasto...

III
Aventa brados de genica,
solta berros, alguns nomes,
apregoa o Nuno Gomes,
- como é bom ser do Benfica!
É das coisas a mais rica,
eterno abraço de união.
Quando chega ao tapadão.
a merenda é p´ra comer,
não tem nada p´ra dizer
num sem fim de solidão...

IV
Vai fitando o companheiro,
o amigo dos seus dias,
nas tristezas, alegrias,
pede ajuda ao seu rafeiro;
faz-se à vida, sorrateiro,
no seu estilo sempre casto,
envereda brando e fasto,
de barriga contentada,
- é um ser, em debandada,
que flutua pelo pasto

(1998)

António Prates - In Sesta Grande

Latido

O teu olhar é terno e transparente,
que fala sem falar, mas com razão;
outrora foste um sábio combatente,
passaste à frigidez de um velho cão…

Passeias pelas veredas, já em vão,
consumindo as saudades do passado:
calmo, sempre lento e mansarrão,
e nessa calma já não entras no silvado…

Retiras mais proveito do teu estado,
olhas com um ar tão seco e sério;
e aqui, neste lugar d`outro passado
deixas-me a pensar no teu mistério…

Contemplas as paisagens como império,
ofereces aos coelhos seu descanso;
dominas, desta vez, este hemisfério,
caminhas no teu passo gasto e manso…

Só de olhar p´ra ti também me canso,
rendido ao teu latir do teu conselho...
Penso em abalar enquanto avanço,
penso em te seguir enquanto és velho...

(1999)

António Prates - Sesta Grande

O Cabeço

Lá no cimo da chapada,
o cabeço se lamenta,
pede a terra bem lavrada
para o trigo que se aventa...

I
Bem vistoso, lá no alto,
dando poiso a um chaparro,
um cabeço algo bizarro,
que a natura fez planalto...
Cheira o medo do asfalto,
que dilui a velha estrada;
o chilrear da passarada
faz do cante suas raízes,
- andam tristes as perdizes,
lá no cimo da chapada...

II
Em silentes madrugadas,
- no silêncio, no descanso -
chega sempre um pombo manso,
que se ajeita nas pernadas...
Quietas lebres camufladas,
uma zorra sempre atenta,
Se a fome a apoquenta,
sua vida é a sua presa,
e com a lei da natureza,
o cabeço se lamenta...

III
Vai o dia no começo,
sopra a brisa e muito frio,
com bichinhos, no pousio,
a reinar neste cabeço...
Tem o gaio o meu apreço,
que também monta caçada;
uma urze está criada
num lugar que não se inibe;
e o partir de um triste abibe,
pede a terra bem lavrada...

IV
Nessa forma de imponente,
junta as pedras no maroço;
e, com silvas no pescoço,
dá sargaços mais à frente...
Como lar vasto e potente,
brinda o chão da sua ementa;
e no rosto que aparenta,
tem memórias q´inda guarda,
Quando lembra a abetarda,
Para o trigo que se aventa...

(1997)

António Prates - In Sesta Grande

Borba Cidade

Celebra em Céu aberto - a Venturosa -,
num meigo encantamento, exuberado;
soletra vinhos, nos calcários do passado,
com alegrias que não cabem numa prosa…

Se esse Sul está correcto, mais à frente,
vê-se na sorte de saudar Vila Viçosa;
e no levante dessa brisa auspiciosa,
saúda Elvas, nos confins do Oriente…

Em Estremoz, ou nos limites mais a Norte,
une-se à estrema de uma linha transparente;
como quem une a dilecção, perdidamente,
acede o chão às terras lhanas de Monforte…

A Sudoeste, adoça a paz com o Redondo,
aonde os cumes sobrepujam pelo porte;
erguendo mais a Promoção da sua sorte,
canta lá modas dos ardis que vai compondo…

Está feliz, por ser Cidade emancipada,
por este povo, que se vai pondo e dispondo,
e que dispôs o seu fervor em alto estrondo,
lançando Borba numa faina consagrada…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Aldeia da Nora

És singela e meiguinha,
ao teu nome estou ligado;
corre Nora direitinha
às memórias do passado...

I
Quando ando no teu chão,
ou te recordo à distância,
lembro mais a minha infância,
bate mais meu coração...
Em cada palmo uma lição,
por cada vereda velhinha;
consumiste o que eu tinha,
em cada gota de energia...
És saudade, és nostalgia,
és singela e meiguinha...

II
Ao percorrer os olivais,
- divididos por velados -
os carrascos e os silvados
Permanecem quase iguais...
Vejo a fruta nos quintais,
como um sonho recordado...
Vou seguindo, emocionado,
pelo oásis verdejante, -
para mim foste marcante,
ao teu nome estou ligado...

III
Em cada horta requintada
há trabalho e há suor;
entre os calos e o calor,
guardo marcas da enxada;
na paisagem desbravada,
que dá vida e acarinha,
a saudade me encaminha
ao encontro da História...
Alcatruzes são memória,
corre Nora direitinha...

IV
Aos Amigos, que respeito,
um abraço sempre eterno,
num sentimento fraterno
conservado por direito;
estão dentro do meu peito,
o seu nome está gravado, -
vejo ali o meu condado,
outrora o meu doce lar,
que me leva a viajar
às memórias do passado...

(1999)

António Prates
In Sesta Grande