Vós que sois juízes do meu fado,
aqui, no resplendor das antefaces,
protegei a minha vida com cuidado,
sem essa aberração das subclasses…
Dizei tudo o que sou e que não sou,
velai a minha acção a descoberto,
e vede que meu mal não se acabou,
aqui, neste arraial de peito aberto…
Por isso, olhai o circo, em traje puro,
os bons malabaristas e os palhaços;
mirai alguns funâmbulos do futuro,
fitando os movimentos que aqui faço…
Defendei o meu feitio rude e tosco,
com esse bem-querer que vos conheço,
e sei que poderei contar convosco
enquanto eu divagar neste endereço…
António Prates – 2014
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domingo, 8 de maio de 2067
Chuva
A chuva que cai lá fora
traz cifrões no que contém,
e o meu povo comemora
as pingas que a chuva tem.
.
Há gente a saltar nas poças,
pontapés na atmosfera,
rapazes que molham moças,
com o cio da primavera.
.
E os velhos olham pra cima
como quem vê mais além…
Há quem diga bem do clima,
quem não bendiga ninguém.
.
No entanto, a chuva cai,
na escola, em alvoroço,
onde um filho engana o pai,
com chuva pelo pescoço.
.
E S. Pedro, bem sereno,
Mete mão n`agricultura,
com água pelo terreno
e com esperança de fartura.
.
António Prates
traz cifrões no que contém,
e o meu povo comemora
as pingas que a chuva tem.
.
Há gente a saltar nas poças,
pontapés na atmosfera,
rapazes que molham moças,
com o cio da primavera.
.
E os velhos olham pra cima
como quem vê mais além…
Há quem diga bem do clima,
quem não bendiga ninguém.
.
No entanto, a chuva cai,
na escola, em alvoroço,
onde um filho engana o pai,
com chuva pelo pescoço.
.
E S. Pedro, bem sereno,
Mete mão n`agricultura,
com água pelo terreno
e com esperança de fartura.
.
António Prates
Assusto-me a rir...
Assusto-me a rir com o arremedo
das falsas aparências, tresloucadas…
E enquanto vou bispando o seu segredo,
avisto um amplo Mar de almas-penadas.
Assusto-me a rir (e às gargalhadas)
emaçado neste ataque de incultura…
Todas as almas me parecem duplicadas
por um prelúdio de rotina, de clausura.
Assusto-me a rir com a compostura
desses reclusos, desse Mar falso e robusto…
E após ser só mais um da escravatura,
quanto mais me rio mais me assusto.
das falsas aparências, tresloucadas…
E enquanto vou bispando o seu segredo,
avisto um amplo Mar de almas-penadas.
Assusto-me a rir (e às gargalhadas)
emaçado neste ataque de incultura…
Todas as almas me parecem duplicadas
por um prelúdio de rotina, de clausura.
Assusto-me a rir com a compostura
desses reclusos, desse Mar falso e robusto…
E após ser só mais um da escravatura,
quanto mais me rio mais me assusto.
O que é a democracia?
O que é a democracia?
Perguntaram–me à saída.
E eu disse que não sabia,
porque nunca a vi na vida.
I
Certo dia, lá num sonho,
muito acima do ozono,
encontrei, pra meu abono,
o mago que aqui exponho:
seu olhar era risonho,
com grande sabedoria,
e num gesto de magia
apontou pra Portugal,
perguntando-me, afinal,
o que é a democracia?
II
Fiquei todo encavacado,
matutando na pergunta,
ao ver tanta coisa junta
para o mesmo resultado…
Recordei todo o passado
desde o ponto de partida,
retorqui-lhe de seguida,
que o sonho era bem vago…
Não queres dizer ao mago?
Perguntaram-me à saída...
III
Entretanto, no retorno,
retornei aos trambolhões:
vi canalhas, vi ladrões,
vi trafulhas, vi suborno,
vi ainda, num contorno,
um sem-fim de hipocrisia,
que me deu, na travessia,
a quantia mais barata…
Vi a pátria democrata,
e eu disse que não sabia...
IV
Aterrei no Alentejo,
junto à Cova dos Ourives,
entre plainos e declives,
junto àquilo que antevejo…
Prossegui, no lugarejo,
a façanha em mim contida,
vendo logo uma avenida,
atulhada de cobiça...
e tentei ver a justiça
porque nunca a vi na vida.
António Prates - 2014
Perguntaram–me à saída.
E eu disse que não sabia,
porque nunca a vi na vida.
I
Certo dia, lá num sonho,
muito acima do ozono,
encontrei, pra meu abono,
o mago que aqui exponho:
seu olhar era risonho,
com grande sabedoria,
e num gesto de magia
apontou pra Portugal,
perguntando-me, afinal,
o que é a democracia?
II
Fiquei todo encavacado,
matutando na pergunta,
ao ver tanta coisa junta
para o mesmo resultado…
Recordei todo o passado
desde o ponto de partida,
retorqui-lhe de seguida,
que o sonho era bem vago…
Não queres dizer ao mago?
Perguntaram-me à saída...
III
Entretanto, no retorno,
retornei aos trambolhões:
vi canalhas, vi ladrões,
vi trafulhas, vi suborno,
vi ainda, num contorno,
um sem-fim de hipocrisia,
que me deu, na travessia,
a quantia mais barata…
Vi a pátria democrata,
e eu disse que não sabia...
IV
Aterrei no Alentejo,
junto à Cova dos Ourives,
entre plainos e declives,
junto àquilo que antevejo…
Prossegui, no lugarejo,
a façanha em mim contida,
vendo logo uma avenida,
atulhada de cobiça...
e tentei ver a justiça
porque nunca a vi na vida.
António Prates - 2014
Maus Versos
Não sou poeta desses adereços
ornados por um fim superficial,
tão-pouco sou um verso de começos
sem termos no sentido horizontal…
Talvez por ser assim sou menos caro,
quiçá por ser assim sou menos alto,
porém este meu estado faz-me raro
num mundo com poemas de basalto…
Assim, vou contemplando os eruditos,
os grandes lavradores da velha arte,
aqueles que nos seus versos bonitos
alastram o seu clamor por toda a parte…
As flores, a ilusão e os rendilhados,
ostentam admiração e todo o resto,
deixando estes maus versos dedicados
a este mau tributo que me presto…
António Prates - 2014
ornados por um fim superficial,
tão-pouco sou um verso de começos
sem termos no sentido horizontal…
Talvez por ser assim sou menos caro,
quiçá por ser assim sou menos alto,
porém este meu estado faz-me raro
num mundo com poemas de basalto…
Assim, vou contemplando os eruditos,
os grandes lavradores da velha arte,
aqueles que nos seus versos bonitos
alastram o seu clamor por toda a parte…
As flores, a ilusão e os rendilhados,
ostentam admiração e todo o resto,
deixando estes maus versos dedicados
a este mau tributo que me presto…
António Prates - 2014
Sabes tu...
Sabes tu, Senhor deífico,
mirabolante do magnífico,
magistrado deste mundo,
quantas vezes te contei
as passagens que passei
desde o alto até ao fundo…
Sabes tu, Deus eminente,
sobre-humano, omnipotente,
testemunho do que digo,
que no imo da canalha
não há só um deus que valha
às tenções de um falso amigo…
Fui arisco, escorraçado;
em silêncio segregado,
por engano ou artifício…
E nos versos da censura
fui julgado com fartura
pelos sores do santo ofício…
E sabes tu, Senhor da fé,
como essa gente é
e como há-de vir a ser…
António Prates - 2014
mirabolante do magnífico,
magistrado deste mundo,
quantas vezes te contei
as passagens que passei
desde o alto até ao fundo…
Sabes tu, Deus eminente,
sobre-humano, omnipotente,
testemunho do que digo,
que no imo da canalha
não há só um deus que valha
às tenções de um falso amigo…
Fui arisco, escorraçado;
em silêncio segregado,
por engano ou artifício…
E nos versos da censura
fui julgado com fartura
pelos sores do santo ofício…
E sabes tu, Senhor da fé,
como essa gente é
e como há-de vir a ser…
António Prates - 2014
Intervalo
Fiz um intervalo, atrás do sol-posto,
duas, quatro, cinco, dez léguas, ou mais,
pra contar as rugas que tenho no rosto,
e medir as causas desses meus sinais…
.
Calculei o tempo em cada refego,
dividi o tempo que passei sozinho,
subtraindo as penas q`inda aqui carrego,
por causa dos danos desse meu caminho…
.
Vendo barbas brancas, vi um ar mais velho,
vi nesse momento mais mil respostas,
e num alto grito escavaquei o espelho,
e aventei as rugas para trás das costas…
.
Sei que minhas costas têm muitas cargas,
sei que nos meus ombros tenho um grande peso,
mas nestes meus ombros destas costas largas,
também acumulo tudo o que desprezo…
.
A vida é composta destes intervalos,
destes retrospectos sempre benfazejos,
que nos dão imagens, que nos contam calos,
com aquele gosto que nos dão mil beijos…
.
António Prates
duas, quatro, cinco, dez léguas, ou mais,
pra contar as rugas que tenho no rosto,
e medir as causas desses meus sinais…
.
Calculei o tempo em cada refego,
dividi o tempo que passei sozinho,
subtraindo as penas q`inda aqui carrego,
por causa dos danos desse meu caminho…
.
Vendo barbas brancas, vi um ar mais velho,
vi nesse momento mais mil respostas,
e num alto grito escavaquei o espelho,
e aventei as rugas para trás das costas…
.
Sei que minhas costas têm muitas cargas,
sei que nos meus ombros tenho um grande peso,
mas nestes meus ombros destas costas largas,
também acumulo tudo o que desprezo…
.
A vida é composta destes intervalos,
destes retrospectos sempre benfazejos,
que nos dão imagens, que nos contam calos,
com aquele gosto que nos dão mil beijos…
.
António Prates
Alienação
Se és louco, continua
a subir nessa loucura,
porque a vida só mingua
quem não tem a tua altura.
I
Cada louco é um segredo
encoberto num mistério,
que se mostra num critério
comparado a um brinquedo…
Mesmo sobre um arremedo
a verdade é sempre nua,
e o sinal se acentua
no tino que sabe a pouco;
se és tu, és quase louco;
se és louco, continua…
II
Sabes bem tudo o que és
dentro da tua aparência,
que te tapa a consciência
e te abre de lés a lés…
Não encubras as marés
dessa tua compostura,
porque atrás dessa figura
de feição inteligente,
és um louco que se sente
a subir nessa loucura…
III
Já vais alto bem o sei,
vais aonde eu imagino,
bem acima do teu tino
no rigor que em ti criei…
Prometo, não contarei
a loucura que é só tua,
pois alteia, vai à lua,
como lobo num rebanho,
e revela o teu tamanho
porque a vida só mingua…
IV
Se és firme no ofício
de trepar até ao espaço,
voas livre - como eu faço -
neste curso vitalício…
Nunca há um precipício
onde há uma aventura,
e sendo tu uma criatura
sempre perto das origens,
enches sempre de vertigens
quem não tem a tua altura…
António Prates - 2014
a subir nessa loucura,
porque a vida só mingua
quem não tem a tua altura.
I
Cada louco é um segredo
encoberto num mistério,
que se mostra num critério
comparado a um brinquedo…
Mesmo sobre um arremedo
a verdade é sempre nua,
e o sinal se acentua
no tino que sabe a pouco;
se és tu, és quase louco;
se és louco, continua…
II
Sabes bem tudo o que és
dentro da tua aparência,
que te tapa a consciência
e te abre de lés a lés…
Não encubras as marés
dessa tua compostura,
porque atrás dessa figura
de feição inteligente,
és um louco que se sente
a subir nessa loucura…
III
Já vais alto bem o sei,
vais aonde eu imagino,
bem acima do teu tino
no rigor que em ti criei…
Prometo, não contarei
a loucura que é só tua,
pois alteia, vai à lua,
como lobo num rebanho,
e revela o teu tamanho
porque a vida só mingua…
IV
Se és firme no ofício
de trepar até ao espaço,
voas livre - como eu faço -
neste curso vitalício…
Nunca há um precipício
onde há uma aventura,
e sendo tu uma criatura
sempre perto das origens,
enches sempre de vertigens
quem não tem a tua altura…
António Prates - 2014
Plantação Caligráfica
Desfarelo aqui dicções,
neste texto em contrapé,
pra plantar em dois talhões
os da boa e os da má-fé.
I
Ao abrir a minha mão,
saltam letras trepidantes,
as mesmas letras que antes
amanhei com o coração…
pula o Z, todo gingão,
com as suas zorações;
rima fome com cifrões,
mete alhos por bugalhos,
e aqui nestes trabalhos
desfarelo aqui dições…
II
Entretanto, o calmo H
junta dez letras, ou mais;
faz caretas às vogais,
cultivando o seu maná…
diz ser fã do que não há,
é um fã do que não é,
como um vento de maré
duvidosa e bailarina,
apregoa o que imagina,
neste texto em contrapé…
III
Encruzado, bem selecto,
diz-me o X, bem divertido,
quase junto ao meu ouvido,
novidades do alfabeto…
E, então, num tom secreto,
denuncia as inflexões
aplicadas nos chavões
inventados a preceito,
que me dão imenso jeito
pra plantar em dois talhões…
IV
Meto algumas consoantes
no alfobre da direita,
mas a esquerda não aceita
gatafunhos circundantes;
planto versos abundantes
com estâncias de banzé;
curto a letras, e até
meto água nas carreiras,
onde cabem nessas leiras
os da boa e os da má-fé.
António Prates
neste texto em contrapé,
pra plantar em dois talhões
os da boa e os da má-fé.
I
Ao abrir a minha mão,
saltam letras trepidantes,
as mesmas letras que antes
amanhei com o coração…
pula o Z, todo gingão,
com as suas zorações;
rima fome com cifrões,
mete alhos por bugalhos,
e aqui nestes trabalhos
desfarelo aqui dições…
II
Entretanto, o calmo H
junta dez letras, ou mais;
faz caretas às vogais,
cultivando o seu maná…
diz ser fã do que não há,
é um fã do que não é,
como um vento de maré
duvidosa e bailarina,
apregoa o que imagina,
neste texto em contrapé…
III
Encruzado, bem selecto,
diz-me o X, bem divertido,
quase junto ao meu ouvido,
novidades do alfabeto…
E, então, num tom secreto,
denuncia as inflexões
aplicadas nos chavões
inventados a preceito,
que me dão imenso jeito
pra plantar em dois talhões…
IV
Meto algumas consoantes
no alfobre da direita,
mas a esquerda não aceita
gatafunhos circundantes;
planto versos abundantes
com estâncias de banzé;
curto a letras, e até
meto água nas carreiras,
onde cabem nessas leiras
os da boa e os da má-fé.
António Prates
Oração
Tanta hipocrisia, Deus me valha!
Detractores da falsidade, Deus me proteja
das infâmias, das trapaças, da escumalha,
das intrigas maldizentes da inveja.
...
Tanta hipocrisia, Deus te digo!
Imaculada falsidade deste vulgo
rezai por todos os pecados que aqui julgo
para aceitar a hipocrisia que mastigo.
...
É tanta hipocrisia, tanta, tanta!
Apregoada, celebrada, consentida,
como dieta de uma sexta-feira Santa
abalroada na consciência de uma vida.
...
Falsa hipocrisia, flor sem sumo!
Alimento virulento em comunhão,
rogo-te, hoje, que te vás nesta Oração
e que te afastes para sempre do meu rumo.
...
Amém!
António Prates
Detractores da falsidade, Deus me proteja
das infâmias, das trapaças, da escumalha,
das intrigas maldizentes da inveja.
...
Tanta hipocrisia, Deus te digo!
Imaculada falsidade deste vulgo
rezai por todos os pecados que aqui julgo
para aceitar a hipocrisia que mastigo.
...
É tanta hipocrisia, tanta, tanta!
Apregoada, celebrada, consentida,
como dieta de uma sexta-feira Santa
abalroada na consciência de uma vida.
...
Falsa hipocrisia, flor sem sumo!
Alimento virulento em comunhão,
rogo-te, hoje, que te vás nesta Oração
e que te afastes para sempre do meu rumo.
...
Amém!
António Prates
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