domingo, 8 de maio de 2067

Latido

O teu olhar é terno e transparente,
que fala sem falar, mas com razão;
outrora foste um sábio combatente,
passaste à frigidez de um velho cão…

Passeias pelas veredas, já em vão,
consumindo as saudades do passado:
calmo, sempre lento e mansarrão,
e nessa calma já não entras no silvado…

Retiras mais proveito do teu estado,
olhas com um ar tão seco e sério;
e aqui, neste lugar d`outro passado
deixas-me a pensar no teu mistério…

Contemplas as paisagens como império,
ofereces aos coelhos seu descanso;
dominas, desta vez, este hemisfério,
caminhas no teu passo gasto e manso…

Só de olhar p´ra ti também me canso,
rendido ao teu latir do teu conselho...
Penso em abalar enquanto avanço,
penso em te seguir enquanto és velho...

(1999)

António Prates - Sesta Grande

O Cabeço

Lá no cimo da chapada,
o cabeço se lamenta,
pede a terra bem lavrada
para o trigo que se aventa...

I
Bem vistoso, lá no alto,
dando poiso a um chaparro,
um cabeço algo bizarro,
que a natura fez planalto...
Cheira o medo do asfalto,
que dilui a velha estrada;
o chilrear da passarada
faz do cante suas raízes,
- andam tristes as perdizes,
lá no cimo da chapada...

II
Em silentes madrugadas,
- no silêncio, no descanso -
chega sempre um pombo manso,
que se ajeita nas pernadas...
Quietas lebres camufladas,
uma zorra sempre atenta,
Se a fome a apoquenta,
sua vida é a sua presa,
e com a lei da natureza,
o cabeço se lamenta...

III
Vai o dia no começo,
sopra a brisa e muito frio,
com bichinhos, no pousio,
a reinar neste cabeço...
Tem o gaio o meu apreço,
que também monta caçada;
uma urze está criada
num lugar que não se inibe;
e o partir de um triste abibe,
pede a terra bem lavrada...

IV
Nessa forma de imponente,
junta as pedras no maroço;
e, com silvas no pescoço,
dá sargaços mais à frente...
Como lar vasto e potente,
brinda o chão da sua ementa;
e no rosto que aparenta,
tem memórias q´inda guarda,
Quando lembra a abetarda,
Para o trigo que se aventa...

(1997)

António Prates - In Sesta Grande

Borba Cidade

Celebra em Céu aberto - a Venturosa -,
num meigo encantamento, exuberado;
soletra vinhos, nos calcários do passado,
com alegrias que não cabem numa prosa…

Se esse Sul está correcto, mais à frente,
vê-se na sorte de saudar Vila Viçosa;
e no levante dessa brisa auspiciosa,
saúda Elvas, nos confins do Oriente…

Em Estremoz, ou nos limites mais a Norte,
une-se à estrema de uma linha transparente;
como quem une a dilecção, perdidamente,
acede o chão às terras lhanas de Monforte…

A Sudoeste, adoça a paz com o Redondo,
aonde os cumes sobrepujam pelo porte;
erguendo mais a Promoção da sua sorte,
canta lá modas dos ardis que vai compondo…

Está feliz, por ser Cidade emancipada,
por este povo, que se vai pondo e dispondo,
e que dispôs o seu fervor em alto estrondo,
lançando Borba numa faina consagrada…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Aldeia da Nora

És singela e meiguinha,
ao teu nome estou ligado;
corre Nora direitinha
às memórias do passado...

I
Quando ando no teu chão,
ou te recordo à distância,
lembro mais a minha infância,
bate mais meu coração...
Em cada palmo uma lição,
por cada vereda velhinha;
consumiste o que eu tinha,
em cada gota de energia...
És saudade, és nostalgia,
és singela e meiguinha...

II
Ao percorrer os olivais,
- divididos por velados -
os carrascos e os silvados
Permanecem quase iguais...
Vejo a fruta nos quintais,
como um sonho recordado...
Vou seguindo, emocionado,
pelo oásis verdejante, -
para mim foste marcante,
ao teu nome estou ligado...

III
Em cada horta requintada
há trabalho e há suor;
entre os calos e o calor,
guardo marcas da enxada;
na paisagem desbravada,
que dá vida e acarinha,
a saudade me encaminha
ao encontro da História...
Alcatruzes são memória,
corre Nora direitinha...

IV
Aos Amigos, que respeito,
um abraço sempre eterno,
num sentimento fraterno
conservado por direito;
estão dentro do meu peito,
o seu nome está gravado, -
vejo ali o meu condado,
outrora o meu doce lar,
que me leva a viajar
às memórias do passado...

(1999)

António Prates
In Sesta Grande

Valente chão

Valente chão que me dizes
novidades da descrença,
nesse teu campo grisalho;
falas de seres infelizes,
sem confiança nem crença,
pedindo pão e trabalho.

Valente chão que me fazes
ser como o chão que tu és:
trigueiro, ermo e enxuto;
falas dos tais capatazes,
dos capitães das ralés,
com muitas falas de luto.

Valente chão que carregas
fardos de tais desertores,
cumulas culpas e faltas;
és contentor das bodegas
desses tão pobres-feitores
dessas patentes mais altas.

Valente chão sem emenda,
sem pegadas de mudança,
sem justiça e sem apuro;
pede a um deus que te atenda
com a tocha da esperança
para os pobres do futuro.

(2012)

António Prates - In Sesta Grande

Navegando

Neste mundo há simpatia,
que se mostra em bonequinhos:
são como doce magia
no bem-estar dos nossos ninhos...

I
Feito mundo de ilusões,
estendido ao universo,
tão preciso e tão perverso,
entre imensas sensações...
Vasto mar de informações,
navegando à revelia:
um solar de companhia,
de estranhas amizades,
e com todas as verdades,
neste mundo há simpatia...

II
Há encanto nas mensagens,
que se mostram tão diversas,
como os temas das conversas
já sonhados nas miragens...
Entre encalhos e passagens,
navegamos como anjinhos,
E avançamos direitinhos
ao bem-estar imaginado,
transmitindo o nosso estado,
que se mostra em bonequinhos...

III
As conversas animadas,
entre ideias e enganos,
atravessam oceanos
tal as cartas enviadas;
boas noites que são dadas,
com sorrisos de alegria,
como um mar de poesia
imprevisto em suas vagas...
estas ondas que são pagas,
são como doce magia...

IV
Ao entrarmos encolhidos,
flutuando o imaginário,
dão-se as contas do rosário,
dão-se os sites pretendidos;
como portos prometidos,
que se cruzam nos caminhos,
vamos indo ali sozinhos,
cultivando o nosso ardil,
tal como um sonho infantil
no bem-estar dos nossos ninhos...

(2004)

António Prates - In Sesta Grande

Sonhos de Poeta

Quis um dia a minha vida
navegar em linha recta,
e encontrou esta guarida
nestes "Sonhos de Poeta"...

I
Vou seguindo o meu destino,
compassado e imprevisto;
do que gosto sempre insisto,
sigo à frente do meu tino...
Sou um simples campesino
desta terra ressequida:
tão agreste e tão sentida,
que me leva a divagar...
Naveguei por este mar,
quis um dia a minha vida...

II
Não sou homem doutorado,
quis assim a minha sina,
- até nisso a vida ensina
e nos dá um bom recado -
sou o tom do meu passado,
nesta minha silhueta...
Sou amigo e sou profeta,
que com sonhos se repete
- quero aqui na Internet
navegar em linha recta...

III
Atraquei num doce lar,
onde aplaudo e agradeço,
o que vi desde o começo
só tenho que elogiar:
há no meu cantarolar
rima triste e divertida,
foi-me dada e concedida,
traduzida em sentimentos,
caminhou por estes ventos
e encontrou esta guarida...

IV
A Fatyly nos diz presente...
- comentários de veludo -
E elogia quase tudo,
ternos mimos com semente;
e o senhor que é Gerente,
o seu discurso é uma meta:
de palavra bem concreta,
comentando esta verdade,
é um rosto de amizade
nestes "Sonhos de Poeta"...

2004

António Prates - In Sesta Grande

Blog Alto da Praça

Envolto nas lições que me pregaste,
recordo as grandes teses debatidas;
relembro discussões, aqui vividas,
nas doutas emoções que provocaste…

O resto de um enredo, já esquecido,
remoça os mistifórios do arquivo,
enquanto o tal pretexto sem motivo
relembra o triste insulto sem sentido…

Amigo, aqui me presto em gratidão,
dedicando os parabéns a esta Praça:
que é informação para quem passam,
nos muitos manifestos que aqui estão…

(2011)

António Prates
In Sesta Grande)

Garraiada

Quando a festa é mais bravia,
segue em frente e desarmado,
como é grande a valentia
na coragem de um forcado...

I
Hoje é dia de tourada
à velha moda Portuguesa,
toda a praça é uma beleza
e os magotes dão chegada...
Vai começar a garraiada,
sobe a mini em euforia...
O descaramento da Maria
faz olhinhos para o moço...
O orgulho do que é nosso
quando a festa é mais bravia...

II
Ela entra e vai a trote,
p`ra contemplar o grande artista,
quer fazer jus à conquista
com a pega e com capote;
e olha lá p`ró camarote,
o trompete é afinado...
Ele - num ar de avalentado -
está ali de pedra e cal,
E quando entra o animal
segue em frente e desarmado...

III
Os Amigos dão-lhe a mão,
com o deus que lhes acuda...
Entra uma e outra ajuda,
e é tremenda a ovação...
Raspa o bicho pelo chão,
a espumar filosofia...
Entre o pó e a gritaria
muitas minis estão a mais,
e os rapazes dão sinais,
como é grande a valentia...

IV
Chegou a hora anunciada,
cresce o touro em prontidão;
quando avança o valentão
entra o bicho em derrocada...
Ela toda entusiasmada
e ele todo elogiado...
O valente é premiado
com a moça como prenda,
é bem justa a bela oferenda
na coragem de um forcado...

(2001)

António Prates - In Sesta Grande

Na Horta

Na horta do Ribeiro do Passarudo,
crescem os frutos e viçosas hortaliças,
há as cebolas, grandes nabos e nabiças,
muita salsa, alguns alhos e quase tudo...

Nessa horta, há amoras encarnadas,
amoras pretas, que maduram pela barda;
há um rafeiro - vagaroso cão de guarda -
junto ao alfobre das alfaces já regadas...

Os poejos tão dispersos lá p`ró fundo,
as baldoregas são criadas sem canteiro;
junto do tanque, e à sombra do limoeiro,
os coentros são temperos d`outro mundo...

Frescos pimentos são a pompa deste hortejo,
engalanados, junto à lera dos melões;
ali ao lado, os tomates e os agriões
dizem, com gosto, que esta horta é Alentejo...

(2004)

António Prates - In Sesta Grande

Lenhador

As mãos gastas e calosas,
o Inverno frio e molhado...
As paisagens mais formosas
estão na ponta do machado...

I
O vento seco, inconstante,
esbraceja no descampado;
um murmúrio assobiado,
sempre altivo e dominante...
O dançar mais elegante,
nas figueiras majestosas;
o silêncio das felosas,
ao sentir o invasor...
No passar do lenhador,
as mãos gastas e calosas...

II
Pela estrada da saudade,
a algazarra dos gaiatos;
noutros tempos sem sapatos,
um padrão de eternidade...
Leva o passo a soledade,
no caminho já cansado;
um andar desempenado
pisa lama pela estrada...
Nos resquícios de geada,
o Inverno frio e molhado...

III
Vai e vem, segue sozinho,
todo o tempo caminhando;
pela estrada vai andando
à procura do azinho;
A fragrância do caminho:
estradas velhas e airosas;
pelas pernas dolorosas
duas léguas já passaram,
e dois olhos que fitaram
as paisagens mais formosas...

IV
Com a zagaia a baloiçar,
num aceno ao casario;
Quando entra no pousio,
entra o tempo a cacimbar...
Vê-se ao longe a bracejar,
pela estrema do lavrado...
O sorriso do montado
vem da copa d`azinheira;
E os petiscos à lareira
estão na ponta do machado...

(1997)

António Prates - In Sesta Grande

Momentos

Os campos que trilhei por brincadeira,
nos prados, nas searas, nos pousios;
as ribeiras, os montados, os baldios,
a companhia de um pião na algibeira...

Aqueles tempos no Algarve desconhecido,
um outro dia em que foi tudo por um triz...
As consequências do que fui e do que fiz,
nesses momentos, sem razão e sem sentido...

As bebedeiras, os futebóis, um desatino,
essas tais farras nessas noites malogradas;
e as cantorias pelas altas madrugadas,
junto aos amigos, já sumidos no destino...

A devoção às realidades pretendidas,
criando versos por impulso ou por paixão;
recordo ainda aquela outra situação,
em que marchei por entre vozes repetidas...

Quando lembro esses momentos mencionados,
sou a criança que pensou que não crescia;
Sinto a saudade, um tremor, a nostalgia,
nestes momentos revividos e recordados...

(2004)

António Prates - In Sesta Grande

Solar Primaveril

O Alentejo está florido,
convertido em seu estendal,
com as quinas em sentido
a gritar por Portugal...

I
Nestes plainos desta alvura,
recital em campo aberto:
rodo o campo está coberto
por muralhas de verdura...
Nos enfeites da brandura,
a brandeza tem ouvido;
como sonho adormecido,
tem o mundo em cada flor,
até à força do calor
o Alentejo está florido...

II
Neste quadro primaveril,
seu encanto é natureza;
resplandece esta pureza,
quando chega o mês de Abril:
a compostura tão viril,
neste encanto conjugal;
o jardim mais imperial,
que se enfeita engalanado,
com o chão abrilhantado,
convertido em seu estendal...

III
Estendeu por todo o lado
um sorriso de acalento,
como fonte de alimento,
alimenta o nosso gado...
O seu rosto arrebicado,
floreado e tão garrido;
seu encanto é colorido,
numa oferenda de cortejo,
que faz jus ao Alentejo,
com as quinas em sentido...

IV
É primor do seu feitiço,
está à vista, sem ser caro:
Vale de Maceiras, Santo Amaro
e São Bento do Cortiço,
Santo Aleixo a seu serviço,
São Romão e Alandroal,
magnificência toda igual,
é submissa e descarada...
lindos campos da Orada
a gritar por Portugal...


António Prates - In Sesta Grande

Diga lá, senhor Doutor

Diga lá, senhor Doutor,
Boas-Novas da Ciência,
ou da santa inteligência
do seu tino sabedor…

Diga lá, senhor doutor,
que é um Homem letrado:
quantos dias tem um fado
produzido em Ré Maior?

Diga lá, senhor Doutor,
quantas horas tem um dia,
daqueles sem serventia
e betado de incolor?

Diga lá, senhor Doutor,
as moléstias que padeço,
e tudo o que não conheço
das notícias desta dor…

Diga lá, senhor Doutor,
de onde vem esta preguiça,
que me acossa, que me atiça,
seja lá aonde for?

Diga lá, senhor Doutor,
se tenho febre na sina,
ou se existe uma vacina
para os dias de calor…

Diga lá, senhor Doutor,
antes que me vá embora,
se o destino marca a hora
por capricho ou por favor…

Diga lá, senhor Doutor!

(2008)

António Prates - In Sesta Grande

Veteranos Borbenses

Veterano, velho apego,
experiência engrandecida;
sempre longe do sossego,
porque a bola nos dá vida...

I
Na corrente do destino,
a vertente da idade,
é cruel toda a verdade
e o querer tão pequenino;
encarrega-se o ensino,
mossa lenta no carrego;
o feliz desassossego
corre aqui nesta cantiga,
leva a bola na barriga,
Veterano, velho apego...

II
A fintar a impotência,
remata contra a maré;
a mazela em cada pé
são as marcas da experiência;
no jogo da convivência,
a jogada discutida...
Na fervura destemida,
o conceito d` amizade:
as histórias, a saudade,
- experiência engrandecida...

III
Em desporto tão fantástico,
as balizas desalinhadas;
são as bolas mais pesadas,
as mazelas são elástico...
Mesmo a bola de plástico
faz roliços no seu ego,
ao sair do aconchego
entre ventos e calores,
vendavais e muitas dores,
- sempre longe do sossego…

IV
O orgulho de quem vence
a disputa dos feijões,
o fervor das discussões
em tom Portucalense;
o carisma do Borbense,
amizade compartida...
- Enaltece esta saída,
marca golos na goela,
e a paixão é sempre bela
porque a bola nos dá vida...

(2001)


António Prates – In Sesta Grande

Barbus Futsal

Mote

Presto ao Barbus Futsal
esta obra que advém
do que Borba é afinal
em tudo o que Borba tem…

I
Indo a termos do verão,
em remates de Setembro,
grafo trechos q`inda lembro
no que é já recordação…
Com as letras em acção,
rimo o acto principal:
onde o Carlos – original –
me ligou ao fim da Praça
pra dizer que esta graça
presto ao Barbus Futsal…

II
Depois, ali em conjunto,
no quiosque do João,
recebi com gratidão
as funções de adjunto.
Discorremos o assunto
como a paz dum entretém…
E seguimos mais além,
até ao fim da minha vinda,
o que eleva mais ainda
esta obra que advém…

III
Não esqueço o Eduardo,
nem o belo acolhimento,
e exulto cada momento
com a força dum petardo.
Confesso, fui felizardo
por estar neste arraial
desta bola intemporal,
desta flama permanente
que me mostra, fortemente,
do que Borba é afinal…

IV
O denodo dos jogadores,
o Karica em construção;
concluintes da missão,
grandes craques cumpridores…
E são justos os louvores
que me levam a dizer bem
deste Barbus, ou d`alguém
que apronte algo na obra
do que Borba tem de sobra
em tudo o que Borba tem…

(2011)

António Prates
(Sesta Grande)

Delírio

É uma louca produção,
estouvada distração,
apoucada na cabeça…
Um dicionário sem aba,
que começa onde se acaba
e se acaba onde começa…

É um grande burburinho,
uma letra sem caminho,
um alfarrábio sem corda…
Um condão desinspirado,
com um bilhete ilustrado
com Água Benta e açorda…

É uma sílaba tonta,
melopeia que me afronta,
vendaval que me percorre…
Proémio do calhamaço,
devaneios do que faço,
flor que nasce e não morre…

(2011)

António Prates - In Sesta Grande

Dador

Mote

Sangue é vida que se doa,
numa terna e grata prova,
do amor de uma pessoa
que pratica a Boa-Nova...

Glosas
I
Sangue viçoso e vermelho,
fonte de vida que aquece,
brota do corpo, aparece
nos vasos do nosso aparelho...
Nome que a lenda fez velho,
na falta que alto se entoa...
Bate no peito, apregoa
dádivas deste alimento...
Vida é sangue em movimento,
sangue é vida que se doa...

II
Brinda Bíblias etéreas,
como nobre sacrifício...
Faz-se sinal do ofício,
correndo pelas artérias...
Soletra as letras mais sérias,
no coração, que renova
o plasma que se comprova
como um contrato de amor,
quando o seu nome é Dador,
numa terna e grata prova...

III
Dá-se um sinal de união,
nos capilares de quem sente
o corpo sofrido e carente
dos gestos de compaixão...
Actos que são o que são,
na compaixão que ressoa...
Sangue esperança que voa,
no laço que é transmitido,
tal como brinde oferecido
do amor de uma pessoa...

IV
Aurícula de paz e de fé,
primor de quem dá o que tem;
pratica os caminhos do bem,
na dádiva de ser o que é...
Sangue de vida, e que até
serve argumento que trova...
O gesto que alto se louva,
saber repartir com os seus,
como um agente de Deus,
que pratica a Boa-Nova...

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Atrás das pedras

Não quero correr mais atrás das pedras,
que atiras junto à fronte do meu rosto;
nem quero calar mais, enquanto medras,
com essas pedras que me atiras por imposto…

Não quero vergar mais aos teus caprichos,
sobranceados pela força do teu braço;
nem quero ser mais um, de entre os bichos,
para que as pedras vejam tudo quanto faço…

Não quero correr mais atrás das pedras,
direccionadas aos meus olhos racionais;
nem quero ocultar mais o que me vedas,
porque te digo que eu já não quero mais…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Peregrino

Parti crente no meu destino,
rumo ao cais da devoção,
como um simples peregrino
que caminha em oração...

I
Ao partir no dia seis,
deste Maio dos meus anos,
juntei-me a outros humanos
com a crença em suas greis;
Esqueci temores e leis,
ao entrar no altar divino,
onde nada é pequenino
ante a crença emocionada,
- enfrentando a vasta estrada,
parti crente no meu destino...

II
Os rostos que desconheço
são sorrisos e alegria,
como paz da Eucaristia,
cultivada e com apreço;
caminhando ao endereço
que me leva em confissão,
desde a Santa Conceição
tudo é Santo e é veloz,
com paragem por Estremoz,
rumo ao cais da devoção...

III
Pelo declive do Vimieiro,
reflectimos dando as Graças,
entre as flores e as carraças,
vi Abraão e fui cordeiro;
como amigo e companheiro,
li Moisés como um menino,
fazendo "anos" no ensino
de um Profeta em Cabeção,
rumo aos Foros do Arrão,
como um simples peregrino...

IV
Escutei Amós e Jeremias,
entretido com a paisagem:
que se erguia na passagem
das andantes Sacristias;
houve fado, horas tardias,
muita paz, muita emoção,
e ao cantar cada canção,
sou voz de um Missionário,
admirando o Santuário
que caminha em oração...

(2006)

António Prates – In sesta Grande