domingo, 8 de maio de 2067

Brados de um Ser

Sou filho de um berço,
que é feito de palha, e cheira a verdura...

Sou fruto de um Maio,
coberto de flores, chorando a censura...

Sou eterno gaiato,
que brinca nos campos, a brincar com nada...

Sou força de um tempo,
que um dia sorriu, e se fez alvorada...

Sou sonho que emerge,
por entre o restolho, e se esvai no pousio...

Sou conto sem fadas,
que avança no tempo, que não se contou...

Sou grito da alma,
que brada no céu, e cai no vazio...

Sou poeta que avança,
por entre o destino, sem saber quem Sou...

(2004)

António Prates - In Sesta Grande

Sentinela Virtual

Vós que sois juízes do meu fado,
aqui, no resplendor das antefaces,
protegei a minha vida com cuidado,
sem essa aberração das subclasses…

Dizei tudo o que sou e que não sou,
velai a minha acção a descoberto,
e vede que meu mal não se acabou,
aqui, neste arraial de peito aberto…

Por isso, olhai o circo, em traje puro,
os bons malabaristas e os palhaços;
mirai alguns funâmbulos do futuro,
fitando os movimentos que aqui faço…

Defendei o meu feitio rude e tosco,
com esse bem-querer que vos conheço,
e sei que poderei contar convosco
enquanto eu divagar neste endereço…

António Prates – 2014

Galapito

Mote

Num ponto do infinito
há um planeta azulado;
enquanto gira de lado
visto de longe é bonito…
Diz-se aqui no Galapito
que há lá um certo animal
que se faz um maioral
e pensa que sabe tudo,
como um grande cabeçudo
de aspecto Universal.

Glosas
I
Diz o povo aqui da Corte,
do lugar aonde estou,
que o ponto p`ra onde vou
é sítio de gente forte…
Vou entrar no Pólo Norte
para ver se ali medito…
Um prazer que necessito
P`ra gelar o meu sentido,
e passar despercebido
num ponto do infinito…

II
É ali no pedregulho
que aqui comparto e vejo…
Onde está um Alentejo
que descansa sem barulho…
Há quem diga que é orgulho
e quem diga que é um fado,
que se leva descansado
nas guerrilhas desse mundo…
E vejo que lá ao fundo
há um planeta azulado…

III
Confesso, estou curioso
p`ra chegar ali depressa,
onde dizem que a cabeça
tem um dom meticuloso…
Viajando o céu viçoso,
avanço no céu estrelado,
onde tudo é encantado
e onde tudo bate certo,
no azul que fica perto
enquanto gira de lado…

IV
Quero ver a cor das serras,
nessas grandes altitudes,
e passar desertos rudes
que apagam outras terras…
Também quero ver as guerras,
para ver se eu acredito
no que a Corte me tem dito
e não quero acreditar…
Mas olhando esse lugar,
visto de longe é bonito…

V
Com a nave desengatada,
vejo algumas claridades,
talvez sejam as cidades
da parte mais abastada…
Noto a porção anilada,
durante o soar de um grito,
que soa como um apito
e zune como um consolo.
- Vamos ver esse bajolo!
Diz-se aqui no Galapito…

VI
A nave sorri, em festa,
pelo azul dos oceanos,
que exibem aos humanos
a frescura que lhes resta…
Dizem que à hora da sesta
esse anil é divinal,
no austro de Portugal,
onde está uma cicatriz…
Toda a nave aponta e diz
que há lá um certo animal…

VII
O Galapito avança mais,
para ver mais à vontade,
e reparo outra verdade
destapada por sinais:
são fumaças colossais
vindas lá do corpo astral…
Penso que algo está mal
nesses tons que não se somem,
e que ficam mal ao Homem
que se faz um maioral…

VIII
Vejo a Lua olhar p´ra mim
como uma Deusa do céu,
que sorri de corpo ao léu,
e a benesse não tem fim…
É ditosa em ser assim,
com um ar sempre amorudo…
Enquanto me quedo mudo,
penso nessa criatura,
que é pomposa na figura
e pensa que sabe tudo…

IX
Lá em baixo oiço trovões,
ou estouros das disputas,
que são o maná das lutas
e o pesar dos corações…
Entre as muitas criações
de cariz grave e agudo,
avisto o animal taludo,
entretido nessa esgrima…
Que diviso aqui de cima
como um grande cabeçudo…

X
Esvaiu-se o meu ensejo
e a querença que trazia,
esse Homem dá-me azia,
alojada no meu pejo…
Já nem vou ao sul do Tejo
ver o ente especial…
Desejando-lhe, por sinal,
sorte para todo o ano,
por ser um alentejano
de aspecto universal…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Talvez um dia

Talvez um dia te faça um poema!
Talvez um dia te conte um conto!
Porém, as letras vestem de espanto
todas as rimas do mesmo tema...

Talvez um dia te faça um poema,
com as quatro letras da minha sina;
cheio de graça, de sacarina
vinda dos trechos de um nobre tema...

Talvez um dia seja um soneto
que te descreve como eu te vejo...
Falo de amores, de um terno beijo
e das palavras a branco e preto...

Talvez um dia!

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Poetas e Cantigas

Isto de fazer uma cantiga,
como a "lei" manda ao poeta
muito tem que se lhe diga,
não sei se noutra me meta.

(mote do Dr. Alexandre Torrinha)

I
Sendo um dom do pensamento,
com palavras num sem fim,
como plantas de um jardim,
enfeitando o chão cinzento;
elas brotam, no momento,
como brota a verde espiga,
um condão que se mastiga
nesta minha opinião...
Eu acho que é vocação
isto de fazer uma cantiga...

II
Bem temperada pela rima,
que lhe dá forma e beleza,
dá sentido e mais firmeza,
se a moral nos vem de cima...
Uma grosa quando lima
pela forma mais concreta,
faz-se trova de profeta,
enfeitada com grainhas,
e as palavras são rainhas,
como a "lei" manda ao poeta...

III
O que é dito pelo mote
é destino e pão da obra;
verso a verso se desdobra,
no sentir de cada dote...
Mete as águas no capote,
quando o pão falta à barriga;
brada alto a quem lhe liga,
exprimindo a sua crítica;
e essa coisa da política,
muito tem que se lhe diga...

IV
Um actor, quando declama
o que manda o sentimento:
trova amor, sorte e lamento,
pedindo paz como quem ama...
Trovador de cante e chama,
que se exalta na caneta;
entretido nesta faceta,
vou rimando a meu prazer,
e como gosto de escrever,
não sei se noutra me meta...

(2003)

António Prates - In Sesta Grande

Serenata

A noite escuta o mote afeiçoado
ao Céu que sobressai do varandim:
um cante com um mote apaixonado,
no amor do Anastácio Joaquim…

A bela cede ao cante, à bela prosa,
ouvindo os provençais no trovador;
um Mago, Um Dom Juan, um Rubirosa
que inflama os altos versos do amor…

Apruma a sua voz pela planície,
num modo açucarado e tão sucinto,
e enquanto diz da vida uma chatice
traduz a inspiração de um Borba tinto…

O tom em Dó Maior - forte e conciso -
aflora a rouquidão, que não lhe acode,
e diz: amor amor…, nesse improviso,
por entre as largas pontas do bigode…

A bela afaga o nardo, emocionada,
com a voz que se evapora no relento,
e entre uma janela escancarada
recolhe aos cobertores do aposento…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Quadras Soltas

Meço as palavras a eito,
neste meu jeito contido,
mas sinto falta de jeito
para rimar sem sentido.

Este mundo parece ter
uma estranha semelhança,
destinada a fazer ver
o que o homem não alcança.

Em cada história contada,
tudo se conta e resume
à vantagem retirada
do proveito e do ciúme...

Quando o pensamento é reles,
e tortura a nossa voz,
proferimos mal daqueles
que proferem mal de nós...

Oiço falar em progresso
aos que me falam de cor,
mas depois de ouvir, lhes peço
que me falem mais de amor...

O amor que queima e tece
as saudades repartidas,
é amor que não se esquece
nem por duas ou três vidas...

Se o Homem tivesse arte
para ver o lado oposto,
via paz em toda a parte
e lavava mais o rosto...

Todos nos falam de Deus,
com sublimes teorias;
rogam em nome dos Céus
os seus favores e manias...

Se além da vida há eterno,
e se Deus nos dá Sentença,
imagino que o inferno
é maior do que se pensa...

Deus nos dê o seu perdão
e qualquer coisa divina,
porque as voltas que se dão
são sempre a mesma rotina.

(2005)

António Prates - In Sesta Grande

Fala-me

Fala-me do tempo e das intrigas,
e dessas coisas que dizemos por falar…
Diz-me prosápias das modestas raparigas,
que fazem renda numa casa à beira-mar…

Diz-me essa história proibida de dizer,
arrecadada no cacifo dos segredos…
Conta-me um verso, daqueles que dão prazer,
quando as vagas fazem rimas nos rochedos…

Canta-me um fado, com a tua voz castiça,
denunciando os infortúnios da miséria…
Fala do Povo, do Divino, e da justiça,
com essa crença que a justeza faz etérea…

Diz um olá… no meu ouvido encortiçado
pelo silêncio das palavras mais esquivas…
Fala do conto que não foi sequer narrado,
no nobre esboço do condão das narrativas…

(2008)

António Prates - In Sesta Grande

Sonhos de Abril

Chora Abril retalhado,
na doutrina do poder,
seguindo rumo ao passado,
com a liberdade a sofrer...

I
No florescer da pastagem,
perante um lençol mimoso,
avança Alentejo vaidoso,
respira desprezo e coragem...
Dá-nos ar da sua imagem,
num sorriso retratado;
disfarça o ser magoado
que sua alma entristece,
enquanto o povo padece
chora Abril retalhado...

II
Lágrimas já repassadas,
penando no leito do rio;
sente um enorme vazio
sofrido em tantas chuvadas...
Brechas, enfim reparadas,
coisas que dizem fazer…
Passa na água - a correr -
tal percurso viciado,
acena em caldo entornado,
na doutrina do Poder...

III
Lições de memória pequena
que a consciência ditou:
Nobre, o poeta trovou:
“Grândola vila morena...”
Aperta saudade amena,
num coração já cansado...
Sangra sozinho no prado,
enferrujando o celeiro,
verga perante o dinheiro,
seguindo rumo ao passado...

IV
Veste em ar de graça
a sensação que promete,
lavrada no Jet-set,
semeada na lei da caça...
Pobre é gente de raça,
povo que sabe perder,
o teu contento é viver
na ambição do sustento,
esquecido no Mandamento,
com a liberdade a sofrer...

(1999)

António Prates - In Sesta Grande

Temporal

Se esta chuva não parar,
durante esta madrugada,
amanhã não faço nada,
e tenho o feno p`ra ceifar.

Se esta chuva não parar,
o terreno fica alagado;
fica o gado sem pastar,
na pastagem do meu gado.

Se estou apoquentado,
durante esta madrugada,
canto uma letra dum fado,
ou um cante à namorada.

Toda a chuva vem molhada,
prometendo a boa vida...
Amanhã não faço nada,
nem cuido da minha lida.

Talvez tome uma bebida,
enquanto a chuva durar;
cai a chuva bem caída,
e tenho o feno p´ra ceifar.

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Pulula a velha inveja pelas veias

Pulula a velha inveja pelas veias,
ali, aos solavancos, na cabeça;
adoida a sensatez de cada peça,
moendo o fraco eixo das ideias…

Afecta velhos novos magros gordos,
e aquela ruiva loira que é morena;
possui a laia grande - laia pequena -
com marcas da invídia nos rebordos…

Lá está, na condição do abastado,
no lucro capital de um lambe-botas;
empresta o seu tributo aos idiotas,
e aos homens de estatuto fabricado…

Insiste e vai até fim do mundo,
com essa agitação empedernida;
Difunde o seu veneno em cada vida,
perfaz o seu desígnio furibundo…

É tanta tanta inveja, essa má sorte,
no génio que a cabeça tem de sobra.
Se alguém contém sucesso em sua obra,
provará do seu veneno até à morte…

E aquando das exéquias benfeitoras,
o mau é bom de mais pra ser verdade;
bendita seja a morte na Humanidade,
que apaga a velha inveja fora d`horas…

(2012)

António Prates - In Sesta Grande

Novas Oportunidades

Por cada lição cumprida
há um exemplo prematuro,
destinado ao bem da vida
e ao proveito do futuro.

I
Nestas Novas Conjunturas
das voltas do meu trajecto,
grafo cunhos do intelecto
com indícios de aventuras;
entre o fado das mesuras
e uma fé fortalecida,
verte a crença concedida
aos testemunhos do saber,
que me dão mais que fazer
por cada lição cumprida…

II
Lavro a minha existência,
no decurso e nas façanhas,
como gestas das entranhas
e do chão da paciência;
em cada certa ocorrência,
vejo sempre um velho muro,
que atalha o que procuro
tal como um animal veloz,
porque em cada um de nós
há um exemplo prematuro…

III
E então algo oportuno
na Nova Oportunidade,
faz-me expor, com liberdade,
as valências que reúno:
lembro as fases do aluno,
nessa fase entorpecida,
comparando cada medida
na forma do seu tamanho,
como algo muito estranho
destinado ao bem da vida…

IV
Todavia, esse recurso,
ondulante e buliçoso
é um exemplo caprichoso
das marcas do meu decurso;
mas depois desse percurso,
que sugere o meu apuro,
há um verso que auguro,
no prato das Competências,
dirigido às contingências
e ao proveito do futuro…

(2008)

António Prates- In Sesta Grande

Amizade

Amizade é um valor que se descreve,
com a bondade que afaga o coração;
dá-nos calor com a cor da fria neve,
nesses momentos de retiro e solidão...

Dá-nos apoio, um delicado sentimento,
compartilhado na ternura, no carinho;
adoça o tempo, a faguice do momento,
onde as palavras soam ternas e baixinho...

Sentimos luz em cada pingo de desvelo,
admirando o resplendor, a claridade;
e cabe sempre mais um amigo no Castelo,
dentro da alma, onde vive esta Amizade…

(2007)

António Prates - Sesta Grande

Flor

Toda a flor que é linda e bela
tem na alma mais perfume,
e todos olham para ela
com desejo e com ciúme…

I
Como um terno amanhecer,
nasce, brota e vem ao mundo;
tem no brio algo profundo
que a faz resplandecer…
Entre o bem e o mal querer,
vinga aqui nesta courela,
como um quadro de aguarela,
conduzindo a sua sina…
É mais doce e mais divina
toda a flor que é linda e bela...

II
Suas cores um matizado,
que a faz montra de beleza:
um tal lustre a camponesa,
no padrão mais destacado…
Entre as muitas a seu lado,
é primor que está no cume,
Como gelo em brando lume,
que derrete, e diz presente…
Toda a flor resplandecente
tem na alma mais perfume…

III
Se é cercada por enleios,
ganha mimos e abraços…
Tudo é lindo e cria laços
com outros que são mais feios…
O vasto encanto em devaneios,
dá-lhe o brilho de uma estrela;
Como eterna sentinela,
tão castiça e tão briosa,
com a luz mais luminosa,
e todos olham para ela…

IV
Veste o pão da divindade,
na estufa da vivência,
que a sua fina aparência
transmite com claridade…
Há quem diga que é vaidade,
e ao primor chame negrume;
com sementes em cardume,
cresce livre e engalanada,
sendo a flor mais cortejada,
com desejo e com ciúme…

(2005)

António Prates - In Sesta Grande

Perseverança

Perseverança dos meus dias apagados,
teimosia destes versos incompletos...
Fazes-me ser como poetas desvairados
na poesia desses torpes alfabetos...

Nunca te rendas, ou me deixes convencido,
ante os discursos, que se fazem com croché...
Ó perseverança és o dom do meu sentido
e aquela força que me faz andar de pé...

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Moinhos do Guadiana (Alqueva)

Ó velas do meu moinho,
rodízios da minha azenha,
vão rodando lentamente
esperando que a morte venha!...

I
Há qualquer coisa no rosto
desse teu ser pachorrento,
como quem espera o vento
nas belas tardes de Agosto…
O que me causa desgosto
é ver o teu descaminho,
deixo neste pergaminho
saudades do teu passado,
e ao ver-te abandonado
ó velas do meu moinho...

II
Foste um símbolo da vida,
remoeste farinha a rodos...
foi pena não dar p´ra todos,
como é triste a despedida...
Foste pão numa guarida,
imperador real da brenha...
o meu ser em ti se empenha
em ser cantante e moleiro...
ó águas do meu ribeiro,
rodízios da minha azenha...

III
Rodopiando a nostalgia
onde o meu ser nada viu,
não laborou, não sentiu,
nem fez de ti moradia;
resta a minha simpatia,
o supor de quem não sente,
recordar o antigamente,
enaltecer a nossa História,
E os meus versos, na memória,
Vão rodando lentamente...

IV
Rodam como uma moagem
com carradas de cultura,
os sinais de desventura
dão-me gritos de coragem,
- são murmúrios da mensagem,
ruminada e tão gamenha...
Que a Natureza nos mantenha
Sempre a par do seu saber,
E todo o mais é só viver,
Esperando que a morte venha...

(2002)

António Prates - In Sesta Grande

Maria

Maria tens no brilho do teu olhar
esta minha complicada situação:
azucrinas com amor meu coração,
quando andas pelo campo a serenar…

Olho as curvas que te tocam no caminho,
e os gestos revolvidos entre a palha;
esperando toda a sorte que me calha,
sou um demo com instantes de anjinho…

Os instantes que me dão dor e enfarte,
se te vejo a manobrar no lavadouro;
por não ter o teu olhar, o teu namoro,
sinto quase um badagaio em toda a parte…

Porém, se a vida tiver tento e caridade,
me dará o teu amor como uma prova;
compro um monte e uma mobília nova,
para te dar além de amor felicidade…

Nessa hora, serei pai de uma família,
que será a reverência do meu mando;
prometo que vou falar, de vez em quando,
sobre a vida e sobre os gastos da mobília…

(2007)

António Prates - In Sesta Grande

Mulher

A mulher é como a fruta,
quando é verde tem frescura,
amadurece enquanto escuta,
e é doce quando é madura...

I
Surgem pontos de atracção
no desejo descarado,
o preconceito é podado
no primor da avaliação;
a instintiva cativação
na vitamina mais astuta,
o apetite que dá luta,
o caminho a escalar...
- está sujeito a reparar:
a mulher é como a fruta...

II
As laranjas reluzentes,
nas canastras e cabazes;
arredondados ananases
ficam belos e salientes,
- os sumarentos pendentes,
descascados na doçura;
o conservante da alvura
é perdido e dispensado,
e tal gomo apaladado
quando é verde tem frescura...

III
Como o néctar do kiwi,
olhares desconcertantes,
conjugam os corantes
no primor que há em si;
a essência que sorri,
que imagina, que matuta;
a certeza diminuta
que invade a melancia,
semeada à revelia
amadurece enquanto escuta...

IV
O destino não se altera
e o tempo não desvia,
Já não é tão sadia
Para ser mais sincera;
a ternura que prospera,
o brio que transfigura:
consistência que assegura
que a experiência é um posto,
é timbrada pelo gosto,
e é doce quando é madura...

(1998)

António Prates - In Sesta grande

Anúncio

Sou um homem educado,
fato limpo e aprumado,
nestas minhas pretensões:
procuro aqui uma mulher ,
que tenha pouco saber
e que traga alguns tostões…


Tem de ser gente encartada,
trabalhosa e asseada,
nas coisas d`agricultura;
se tiver um bom tractor,
digo que ainda é melhor
para os dias de fartura…


Convém que seja uma feia,
com buracos na ideia
e vontade p`rá cozinha,
que me faça bons petiscos,
e suture outros rabiscos
com agulha e boa linha…


Essas suas mãos de fada
prometem casa arrumada
e destreza no asseio,
- já vejo tudo a luzir,
quando ela quiser ouvir
os versos do meu paleio…


Também quero ser adorado,
no enxuto, no molhado,
na luzerna e no fogão,
e assim a venturosa
será aquela que goza
este anúncio de paixão…

(2006)

António Prates - In Sesta Grande

Pastor Alentejano

Leva o gado pelo cão,
neste campo belo e vasto,
num sem fim de solidão
Que flutua pelo pasto...

I
Quando o sol quiser brilhar,
neste campo, neste atalho,
há meio dia de trabalho
que se fez a trabalhar;
seu destino é madrugar
e dar vida ao alavão,
entre ovelhas e o colchão
faz o mesmo todo o ano,
o pastor alentejano
leva o gado pelo cão...

II
Leva o tarro na farpela
e o rádio p´ró relato,
acompanha o campeonato
embutido na courela;
a garrafa é uma estrela
que no cocho deixa o rasto,
o rebanho segue basto,
vai unido e imponente,
pelo golo está contente,
neste campo belo e vasto...

III
Aventa brados de genica,
solta berros, alguns nomes,
apregoa o Nuno Gomes,
- como é bom ser do Benfica!
É das coisas a mais rica,
eterno abraço de união.
Quando chega ao tapadão.
a merenda é p´ra comer,
não tem nada p´ra dizer
num sem fim de solidão...

IV
Vai fitando o companheiro,
o amigo dos seus dias,
nas tristezas, alegrias,
pede ajuda ao seu rafeiro;
faz-se à vida, sorrateiro,
no seu estilo sempre casto,
envereda brando e fasto,
de barriga contentada,
- é um ser, em debandada,
que flutua pelo pasto

(1998)

António Prates - In Sesta Grande